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10 descobertas científicas do século XIX

Da teoria atômica de Dalton aos raios X de Röntgen, dez achados que reorganizaram a física, a química e a biologia entre 1803 e 1896, apresentados em ordem cronológica.

Por Equipe editorial Publicado em 7 de abril de 2026 Atualizado em 8 de julho de 2026 35 min de leitura 10 posições
Período considerado De 1803 a 1896
Natureza da ordenação Ordenação cronológica
Itens avaliados 10 descobertas
Área principal Ciência geral

Introdução

O século XIX foi o período em que a investigação da natureza deixou de ser ocupação de indivíduos com recursos próprios e se tornou profissão, com laboratórios permanentes, revistas especializadas, congressos internacionais e formação regular de pesquisadores. Essa mudança de organização aparece nas dez posições reunidas aqui: cinco delas nasceram dentro de universidades ou institutos criados no próprio século, e nenhuma foi obra de uma pessoa isolada de sua comunidade científica.

A ordem desta lista é cronológica, e não hierárquica. As posições seguem a data da publicação ou do anúncio público de cada achado, do mais antigo para o mais recente, sem qualquer juízo sobre qual deles teve maior alcance. Quem procurar aqui uma disputa entre a teoria celular e a tabela periódica não vai encontrá-la: o que está em julgamento é a seleção dos dez itens, não a sequência em que aparecem.

A seleção, por sua vez, é editorial e foi feita sob critérios declarados na seção correspondente. Foram privilegiados achados que mudaram o modo de explicar um domínio inteiro da natureza, que geraram pesquisa nova dentro do próprio século e cujo conteúdo central continua válido. Esse filtro deixou de fora contribuições importantes, e a seção de limitações nomeia as principais ausências.

Um padrão atravessa o conjunto e vale registrar de saída: em oito das dez posições, a descoberta dependeu de um instrumento ou de uma técnica que não existia uma geração antes. O microscópio acromático, o espectroscópio, a placa fotográfica, a bobina de indução e os tubos de vidro capazes de suportar vácuo elevado não são detalhes técnicos da história; foram a condição material para que as perguntas pudessem ser feitas.

Objetivo deste ranking

Apresentar, em sequência temporal, dez descobertas do século XIX que reorganizaram campos inteiros do conhecimento, informando para cada uma o que foi descoberto, quando e por quem, em que condições institucionais o trabalho foi feito e quais consequências se seguiram dentro e fora da ciência.

A lista foi montada como material de consulta e ponto de partida. Cada posição indica os trabalhos originais, as datas de publicação e as instituições que mantêm acervo documental sobre o tema, de modo que o leitor possa verificar as afirmações e seguir adiante por conta própria.

Ordenação cronológica A ordem das posições segue a cronologia dos fatos e pode ser conferida diretamente nas fontes indicadas. A escolha de quais descobertas entram na lista permanece editorial, mas a sequência em si não depende de julgamento.

Critérios de seleção

Os critérios abaixo foram definidos antes da montagem da lista e aplicados a todos os candidatos avaliados. Eles explicam por que uma descoberta entrou e por que ficou onde ficou.

  • Mudança no modo de explicar a natureza

    Peso 1 — decisivo

    Grau em que o achado substituiu uma explicação anterior por outra de tipo diferente, e não apenas acrescentou informação ao que já se sabia. Descobertas que trocaram o próprio vocabulário de um campo pontuam acima das que resolveram problemas internos a ele.

  • Fecundidade dentro do próprio século

    Peso 2 — alto

    Quantidade de pesquisa nova gerada até 1900. Este critério favorece achados que foram assimilados rapidamente e prejudica os que ficaram ignorados por décadas, como as leis da hereditariedade, incluídas apesar disso por decisão editorial explicada na metodologia.

  • Confirmação por método independente

    Peso 3 — alto

    Existência de verificação por grupos e técnicas distintas daqueles que produziram o resultado original, preferencialmente ainda no século XIX. Previsões numéricas confirmadas depois da formulação recebem peso adicional.

  • Permanência do núcleo do achado

    Peso 4 — médio

    Medida do quanto da formulação original continua em uso. Aceitamos correções posteriores substanciais, desde que a ideia central tenha resistido: a tabela periódica mudou de critério de ordenação em 1913 sem deixar de ser a mesma tabela.

  • Consequência documentada fora do laboratório

    Peso 5 — médio

    Existência de aplicação técnica, sanitária ou produtiva atribuível ao achado, com registro histórico datado. Serve como critério de desempate e não como exigência de entrada, para não excluir contribuições de efeito puramente conceitual.

Metodologia

O levantamento inicial reuniu pouco mais de trinta candidatas, extraídas de obras de história da ciência publicadas por editoras universitárias, de acervos documentais de sociedades científicas fundadas no século XIX e de coleções institucionais de artigos originais. Nessa etapa não houve descarte por importância: entraram todas as candidatas com data de publicação verificável entre 1800 e 1900.

Cada candidata teve data, autoria e conteúdo conferidos em pelo menos duas fontes independentes, sendo uma delas institucional. Sete candidatas caíram nessa etapa, quase todas por narrativas de descoberta que a checagem documental não sustentou, ou por atribuição que a literatura histórica trata como disputada sem solução.

Aos critérios listados acima cabe apenas a seleção dos dez itens. A ordem de apresentação é cronológica e obedece à data da publicação ou do anúncio público. Quando o achado se estende por um intervalo, como a teoria dos germes entre 1861 e 1882, a posição foi ordenada pelo ano inicial do intervalo. Esse procedimento produz uma sequência em que a teoria dos germes precede a teoria eletromagnética da luz, ainda que o intervalo da primeira termine depois.

Achados que formam um processo contínuo foram tratados como uma única posição. A observação de Ørsted, em 1820, e a indução eletromagnética de Faraday, em 1831, aparecem juntas porque a segunda é a exploração sistemática da primeira e porque separá-las daria a um mesmo programa experimental duas das dez vagas disponíveis. O mesmo raciocínio uniu os raios X e a radioatividade, descobertos em meses consecutivos e ligados pelo problema que abriram.

As leis da hereditariedade foram mantidas apesar de pontuarem mal no critério de fecundidade no século, já que só foram assimiladas a partir de 1900. A decisão está registrada aqui para que fique clara: nesse caso, a permanência do achado e a magnitude do que ele explicou pesaram mais que a data em que a comunidade científica reparou nele.

Período considerado

De 1803 a 1896. O recorte abre com os primeiros trabalhos de John Dalton sobre pesos atômicos, entre 1803 e 1808, e se encerra em 1896, ano em que Henri Becquerel comunicou a emissão espontânea de radiação pelos sais de urânio. As duas pontas foram escolhidas por marcarem mudanças de escala do olhar: no início do século a química passou a raciocinar sobre partículas que ninguém havia visto, e no fim dele a física encontrou um caminho para o interior dessas partículas. Achados de 1897 em diante, como a identificação do elétron, ficaram fora por pertencerem à sequência que a lista seguinte, dedicada ao século XX, examina em detalhe.

As 10 posições

Cada posição reúne o que foi descoberto, quando, por quem e com que consequências. Use o índice ao lado para saltar entre elas ou a navegação ao final de cada bloco.

Posição 1: A teoria atômica

A proposta de que cada elemento é feito de átomos com peso característico transformou a química em ciência quantitativa e explicou por que substâncias se combinam em proporções fixas.

Ano
1803–1808
Onde
Reino Unido
Quem
John Dalton
Tipo
Teórica

Entre 1803 e 1808, John Dalton, professor particular em Manchester, propôs que cada elemento é formado por átomos indivisíveis, idênticos entre si e diferentes, em peso, dos átomos de qualquer outro elemento. A primeira tabela de pesos relativos apareceu em 1803; a exposição completa saiu em 1808.

O poder da proposta estava em transformar em contabilidade uma regularidade até então descritiva. Se compostos se formam pela união de números inteiros de átomos, então as proporções em massa de seus ingredientes só podem assumir certos valores. Dalton verificou isso nos óxidos de carbono e de nitrogênio, e enunciou o que passou a ser chamado de lei das proporções múltiplas.

O sistema tinha erros que demoraram meio século para serem corrigidos. Dalton supunha as combinações mais simples possíveis, atribuindo à água um átomo de hidrogênio por um de oxigênio, e não distinguia átomo de molécula. As medidas de volume de gases feitas por Joseph Louis Gay-Lussac em 1808 e a hipótese de Amedeo Avogadro, de 1811, apontavam a saída, que ele rejeitou; a confusão só se dissipou com os pesos atômicos propostos por Stanislao Cannizzaro em 1858.

Durante quase todo o século, o átomo permaneceu hipótese de trabalho: útil para calcular, sem prova de existência física. A demonstração experimental veio depois, com a explicação do movimento browniano em 1905 e as medições de Jean Perrin entre 1908 e 1913.

Contexto histórico

Dalton trabalhava fora do sistema universitário, sustentando-se com aulas particulares e apoiado pela Sociedade Literária e Filosófica de Manchester. Sua proposta entrou em um debate aceso: desde 1803, Joseph Louis Proust sustentava que os compostos têm composição fixa, contra Claude Louis Berthollet, para quem ela poderia variar continuamente. A teoria atômica dava à posição de Proust um mecanismo, e não apenas análises concordantes.

Impacto científico

A química ganhou uma linguagem de fórmulas e equações balanceadas, e com ela a estequiometria que organiza o cálculo de reações. O programa de determinação de pesos atômicos, levado adiante por Jöns Jacob Berzelius, produziu os dados sem os quais a tabela periódica de 1869 não seria possível. A ideia de átomos com capacidade de combinação definida abriu caminho para a química estrutural.

Impacto social

A produção química em escala industrial passou a depender de cálculo, e não de receita. Fertilizantes, ácidos, corantes sintéticos a partir de 1856, explosivos e vidros ganharam controle de composição. O mesmo raciocínio foi levado à preparação de medicamentos, cujos teores passaram a ser especificados por massa em farmacopeias nacionais.

Posição 2: A ligação entre eletricidade e magnetismo e a indução eletromagnética

A prova de que corrente elétrica produz efeito magnético, e que campo magnético em variação gera corrente, tornou possível produzir eletricidade em quantidade industrial.

Ano
1820–1831
Onde
Dinamarca e Reino Unido
Quem
Hans Christian Ørsted, André-Marie Ampère, Michael Faraday
Tipo
Experimental

Em abril de 1820, em Copenhague, Hans Christian Ørsted notou que a agulha de uma bússola girava quando colocada junto a um fio percorrido por corrente. O resultado, publicado em julho daquele ano em um breve texto em latim, circulou pela Europa em poucas semanas e desfez a separação entre dois conjuntos de fenômenos até então estudados por comunidades distintas.

A resposta foi imediata. Em setembro de 1820, André-Marie Ampère mediu a força entre condutores paralelos e começou a construir a descrição matemática do que chamou de eletrodinâmica. No mesmo ano, Jean-Baptiste Biot e Félix Savart estabeleceram como a intensidade do efeito magnético decai com a distância ao fio.

Michael Faraday, na Royal Institution de Londres, procurou o efeito inverso por dez anos. Encontrou-o em 1831: ao variar a corrente em uma bobina enrolada num anel de ferro, surgia corrente em uma segunda bobina no mesmo anel. O essencial era a variação, e não a corrente em si. Em seguida, ele construiu o primeiro gerador de corrente contínua, um disco de cobre girando entre polos de ímã.

A prioridade da indução é disputada: Joseph Henry, nos Estados Unidos, obteve resultados equivalentes entre 1830 e 1832, mas publicou depois. Faraday foi além do fenômeno ao propor que o espaço em torno de correntes e ímãs está preenchido por linhas de força com existência física, ideia que fundaria o conceito de campo.

Contexto histórico

Ørsted não tropeçou no efeito por acaso: influenciado pela filosofia da natureza de tradição alemã, procurava havia anos uma unidade entre as forças, e por isso reconheceu o que outros poderiam ter descartado como defeito do aparelho. Faraday tinha formação escolar mínima, começou como encadernador e chegou ao laboratório como assistente de Humphry Davy; sua limitação em matemática avançada é citada como razão para ele ter raciocinado por imagens físicas.

Impacto científico

Duas áreas separadas viraram uma, e o eletromagnetismo passou a ser o campo mais ativo da física experimental europeia por meio século. O conceito de campo tornou-se o formato padrão das teorias físicas posteriores. Todo o material experimental que James Clerk Maxwell traduziria em equações, na sétima posição desta lista, saiu desse período.

Impacto social

Gerador e transformador, aplicações diretas da indução, tornaram a eletricidade um produto industrial em vez de curiosidade de gabinete. O telégrafo elétrico entrou em operação comercial em 1837 no Reino Unido e em 1844 nos Estados Unidos; as primeiras centrais elétricas públicas começaram a funcionar em 1882, em Londres e em Nova York. Motores elétricos individuais substituíram eixos e correias movidos a vapor no interior das fábricas.

Posição 3: A teoria celular

O reconhecimento de que todos os seres vivos são formados por células, e que cada célula procede de outra célula, deu à biologia sua unidade de análise.

Ano
1838–1839
Onde
Alemanha
Quem
Matthias Jacob Schleiden, Theodor Schwann, Rudolf Virchow
Tipo
Observacional

Em 1838, o botânico Matthias Jacob Schleiden sustentou que os tecidos vegetais são inteiramente constituídos por células. No ano seguinte, Theodor Schwann, então assistente de Johannes Müller em Berlim, estendeu a afirmação aos animais em um livro de investigações microscópicas, propondo que os tecidos animais mais diversos derivam de uma mesma unidade elementar.

A generalização só se tornou possível porque o instrumento havia mudado. As lentes acromáticas desenvolvidas a partir de 1830 eliminaram as franjas coloridas que antes produziam artefatos e tinham desmoralizado observações anteriores. Em 1831, Robert Brown descreveu o núcleo como estrutura regular das células vegetais, dando ao interior celular um ponto de referência estável.

A parte errada da formulação inicial foi corrigida em quinze anos. Schleiden e Schwann imaginavam que células novas se formavam por precipitação a partir de uma substância sem forma. Robert Remak, em 1852, e Rudolf Virchow, em 1855, estabeleceram que células surgem por divisão de células preexistentes, ideia que Virchow condensou na fórmula latina que se tornou o lema da disciplina. A prioridade de Remak sobre o enunciado é registrada pela literatura histórica.

O restante do século preencheu o interior da célula. Walther Flemming descreveu entre 1878 e 1882 as etapas da divisão e o material que se cora intensamente no núcleo, e August Weismann propôs, entre 1883 e 1892, que a herança está confinada às células germinativas, separadas das células do corpo.

Contexto histórico

A proposta chegou em meio à disputa entre explicações vitalistas e mecânicas da vida. Schwann havia sustentado em 1837 que a fermentação depende de um organismo vivo, tese ridicularizada pelos químicos Justus von Liebig e Friedrich Wöhler, que a atribuíam a processos puramente químicos. O episódio custou-lhe posição na Alemanha, e ele transferiu-se para a Bélgica em 1839.

Impacto científico

Botânica e zoologia, disciplinas com objetos e métodos separados, passaram a compartilhar uma unidade de análise, o que tornou possível comparar tecidos de organismos distantes. A patologia celular formulada por Virchow em 1858 deslocou a doença dos humores e dos órgãos para alterações de células. A citologia resultante forneceu o terreno onde, no fim do século, os cromossomos seriam identificados como portadores da herança.

Impacto social

O exame microscópico de tecidos e de sangue entrou na rotina hospitalar na segunda metade do século e criou uma prática nova: examinar material retirado do paciente para caracterizar a doença. A formação médica passou a incluir treinamento em microscopia, e laboratórios de análise se tornaram parte da estrutura dos hospitais universitários europeus antes de 1900.

Posição 4: A conservação da energia e a segunda lei da termodinâmica

A medição do equivalente mecânico do calor e o enunciado de que processos térmicos têm sentido preferencial deram à física duas leis que nenhum experimento contrariou desde então.

Ano
1843–1851
Onde
Reino Unido e Alemanha
Quem
James Prescott Joule, Julius Robert von Mayer, Hermann von Helmholtz, Rudolf Clausius, William Thomson
Tipo
Experimental

Entre 1843 e 1850, James Prescott Joule mediu quanto trabalho mecânico é necessário para produzir uma quantidade determinada de calor. O arranjo mais conhecido usava pesos em queda para girar pás dentro de um recipiente de água isolado, com o aquecimento lido em termômetros de precisão. O resultado dispensava o calórico, fluido que se supunha transferido de corpo a corpo, e tratava o calor como energia em trânsito.

A formulação geral tem paternidade dividida. Julius Robert von Mayer publicou em 1842, por raciocínio sobre calor animal, uma relação numérica entre trabalho e calor; Hermann von Helmholtz apresentou em 1847 o enunciado matemático da conservação, aplicado a fenômenos mecânicos, térmicos, elétricos e fisiológicos. A disputa de prioridade entre Joule e Mayer foi longa, e a literatura histórica atribui a ambos contribuições independentes.

A segunda lei nasceu de um problema de engenharia. Sadi Carnot havia mostrado em 1824 que o rendimento máximo de uma máquina térmica depende apenas das temperaturas entre as quais ela opera. Em 1850, Rudolf Clausius reconciliou esse argumento com a conservação da energia acrescentando um enunciado independente: calor não passa espontaneamente de um corpo frio para um mais quente. William Thomson deu em 1851 formulação equivalente.

Clausius batizou em 1865 a grandeza que mede a irreversibilidade dos processos, e chamou-a de entropia. Na década de 1870, Ludwig Boltzmann e James Clerk Maxwell mostraram que essa grandeza corresponde ao número de configurações microscópicas compatíveis com um estado observável.

Contexto histórico

Joule era filho de cervejeiros e financiou os próprios experimentos, o que rendeu resistência inicial de físicos acadêmicos a resultados obtidos por alguém sem posição universitária. A precisão exigida também gerava desconfiança: as diferenças de temperatura a medir eram de frações de grau. O apoio público de Thomson, a partir de 1847, foi decisivo para a aceitação.

Impacto científico

A energia se tornou a moeda comum entre mecânica, calor, eletricidade, química e fisiologia, permitindo converter contas de um domínio em contas de outro. A segunda lei introduziu na física a assimetria temporal: processos naturais têm direção, e essa direção não decorre das equações da mecânica. Da tentativa de reconciliar as duas coisas nasceu a mecânica estatística.

Impacto social

O rendimento das máquinas térmicas deixou de ser questão de tentativa e erro e passou a ter limite calculável, o que orientou o projeto de locomotivas, navios e usinas. A refrigeração mecânica por compressão, em escala comercial a partir de 1876, alterou o transporte e a conservação de alimentos. A mesma contabilidade foi aplicada à alimentação humana, com medições calorimétricas de alimentos na década de 1890.

Posição 5: A seleção natural

A identificação de um mecanismo natural para a adaptação retirou da biologia a necessidade de recorrer a desígnio para explicar a forma e a diversidade dos seres vivos.

Ano
1858–1859
Onde
Reino Unido
Quem
Charles Darwin, Alfred Russel Wallace
Tipo
Observacional

Em 1º de julho de 1858, a Linnean Society de Londres ouviu a leitura de dois textos apresentados em conjunto: um resumo de Charles Darwin e um ensaio que Alfred Russel Wallace havia escrito no arquipélago malaio. A coincidência entre autores que trabalhavam em continentes diferentes é um dos casos mais citados de descoberta simultânea. O livro de Darwin sobre a origem das espécies saiu em novembro de 1859.

O argumento é curto e não depende de nenhum conhecimento sobre herança. Nascem mais indivíduos do que o ambiente sustenta; eles diferem entre si; parte dessas diferenças passa aos descendentes; logo, características associadas a maior sucesso reprodutivo naquele ambiente tornam-se mais frequentes ao longo das gerações. Um ensaio de Thomas Malthus sobre população, lido em 1838, deu a Darwin a primeira metade do raciocínio.

Duas objeções sérias ficaram sem resposta por décadas. A primeira era física: os cálculos de William Thomson sobre o resfriamento da Terra, a partir de 1862, davam ao planeta idade muito menor do que a seleção natural exigiria, problema resolvido apenas depois da descoberta da radioatividade. A segunda era a ausência de um mecanismo de herança: características que se misturassem nos filhos diluiriam a variação em poucas gerações.

Os dois divergiram depois. Wallace defendeu que a seleção natural explica o corpo, mas não as faculdades mentais humanas, posição que Darwin rejeitou no livro que publicou em 1871 sobre a origem do homem, onde também desenvolveu a ideia de seleção por escolha de parceiros.

Contexto histórico

A recepção foi rápida e ruidosa. A primeira tiragem esgotou-se em dias, e o debate público na reunião da British Association em Oxford, em 1860, opôs Thomas Henry Huxley e Joseph Dalton Hooker ao bispo Samuel Wilberforce. Dentro da biologia, a descendência com modificação foi aceita em poucos anos, mas a seleção natural como mecanismo principal ficou em minoria até o início do século XX.

Impacto científico

Anatomia comparada, embriologia, paleontologia e distribuição geográfica das espécies passaram a ser lidas como registros de uma única história de descendência, e semelhanças antes tomadas como formais viraram evidência de parentesco. O mecanismo também tornou observáveis processos em curso: o avanço de linhagens bacterianas resistentes a antimicrobianos é seleção natural documentada em escala de anos.

Impacto social

A ideia alterou a discussão pública sobre a posição humana na natureza com intensidade que poucos resultados científicos alcançaram, e a controvérsia permanece ativa em vários países. O trabalho também foi apropriado, ainda no século XIX, por doutrinas sociais e raciais que buscavam nele autoridade científica, sem amparo no que Darwin e Wallace demonstraram.

Posição 6: A teoria dos germes e a identificação de agentes de doenças

A prova de que microrganismos determinados causam doenças determinadas substituiu explicações ambientais difusas por agentes que podiam ser vistos, cultivados e bloqueados.

Ano
1861–1882
Onde
França e Alemanha
Quem
Louis Pasteur, Robert Koch, Joseph Lister
Tipo
Experimental

Em 1861, Louis Pasteur publicou o trabalho em que mostrava, com frascos de gargalo curvo, que caldos esterilizados não fermentam nem apodrecem se partículas do ar não os alcançarem. A fermentação era, portanto, obra de organismos vivos, e não de rearranjo químico espontâneo. Em 1865, o mesmo raciocínio virou técnica: aquecer líquidos a temperatura controlada para reduzir a carga microbiana sem alterá-los.

Robert Koch converteu essa constatação geral em método de identificação. Desenvolveu meios de cultura sólidos, primeiro com gelatina e depois com ágar, cuja adoção partiu de uma sugestão de Fanny Hesse ao marido, colaborador de Koch. Com culturas puras, corantes e registro fotográfico das preparações, estabeleceu em 1876 o ciclo do bacilo do antraz e anunciou em março de 1882 o bacilo da tuberculose.

A década de 1880 concentrou uma sequência de identificações. O bacilo da difteria foi observado em 1883 e cultivado em 1884; o vibrião do cólera foi isolado por Koch entre 1883 e 1884, durante missão no Egito e na Índia, embora já tivesse sido descrito por Filippo Pacini em 1854, sem repercussão; o agente do tétano foi caracterizado em 1884 e o da peste, em 1894.

As aplicações vieram junto. Joseph Lister publicou em 1867 os resultados do uso de ácido fênico em cirurgias, reduzindo infecções pós-operatórias; Pasteur aplicou em 1885 a primeira vacina contra a raiva. Institutos dedicados à área surgiram em Paris, em 1888, e em Berlim, em 1891.

Contexto histórico

A geração espontânea foi o campo de batalha inicial. O debate entre Pasteur e Félix Archimède Pouchet, decidido por comissão da Academia de Ciências da França em 1862, definia se microrganismos apareciam do nada em matéria orgânica ou vinham sempre de outros. Depois disso, a rivalidade entre França e Alemanha, agravada pela guerra de 1870, marcou a relação entre Pasteur e Koch, que trocaram acusações públicas sobre métodos e prioridade.

Impacto científico

A microbiologia se constituiu como disciplina com métodos próprios, e as condições que Koch formalizou para atribuir uma doença a um agente permanecem referência. Quando agentes capazes de atravessar filtros que retinham bactérias foram encontrados em plantas doentes, em 1892 e 1898, o próprio método apontou seus limites e abriu o caminho da virologia.

Impacto social

Tratamento de água, esgoto, pasteurização do leite, esterilização de instrumentos e isolamento de doentes deixaram de ser medidas intuitivas e passaram a ter justificativa verificável, o que mudou a legislação sanitária de cidades inteiras. No Brasil, as campanhas conduzidas por Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro a partir de 1903 aplicaram esse repertório contra peste, febre amarela e varíola.

Posição 7: A teoria eletromagnética da luz

A demonstração matemática de que a luz é uma onda eletromagnética uniu óptica e eletricidade e previu ondas invisíveis, produzidas em laboratório vinte anos depois.

Ano
1865–1888
Onde
Reino Unido e Alemanha
Quem
James Clerk Maxwell, Heinrich Hertz, Oliver Heaviside
Tipo
Teórica

Em trabalho lido em 1864 e publicado em 1865, James Clerk Maxwell reuniu os resultados experimentais sobre eletricidade e magnetismo em um sistema de equações e acrescentou um termo que faltava, correspondente a um efeito magnético produzido por campo elétrico em variação, mesmo sem fio conduzindo corrente. Foi esse acréscimo que tornou as equações compatíveis entre si.

A consequência apareceu no próprio cálculo. O sistema previa perturbações que se propagam pelo espaço, e a velocidade delas, obtida a partir de constantes medidas em experimentos de eletricidade e de magnetismo, coincidia com a velocidade da luz determinada por métodos ópticos. Maxwell concluiu que a luz é um caso particular desse fenômeno e que deveria haver ondas do mesmo tipo em outras frequências.

A forma hoje usada não é a original. Maxwell escreveu vinte equações com vinte variáveis; entre 1884 e 1885, Oliver Heaviside as reduziu às quatro relações vetoriais que constam dos cursos de física, paralelamente a Hertz.

A confirmação experimental veio em Karlsruhe. Entre 1886 e 1888, Hertz gerou ondas com um circuito de descarga por centelha, detectou-as a distância com um ressonador, mediu seu comprimento de onda e mostrou que elas refletem, refratam e se polarizam como a luz. Publicados em 1887 e 1888, os resultados encerraram a discussão.

Contexto histórico

Maxwell morreu em 1879, aos 48 anos, sem ver a confirmação. Hertz não atribuiu utilidade prática ao que havia produzido e afirmou publicamente que as ondas serviam apenas para verificar a teoria. A aplicação começou poucos anos depois de sua morte, em 1894: Guglielmo Marconi transmitiu sinais sem fio a partir de 1895 e, em 1901, através do Atlântico. Marconi dividiu com Karl Ferdinand Braun o Prêmio Nobel de Física de 1909.

Impacto científico

O sistema de Maxwell tornou-se o modelo do que se espera de uma teoria unificadora e fixou o campo como objeto físico central. Ele também deixou um problema: as equações indicavam uma velocidade da luz sem referência a quem observa, o que não se ajustava à mecânica então vigente. As tentativas de detectar o movimento da Terra em relação a um meio de propagação, a partir de 1887, deram resultado nulo.

Impacto social

A previsão de ondas em outras frequências levou à telegrafia sem fio, ao rádio, à radiodifusão, ao radar e às comunicações por micro-ondas, além de fornecer a base para entender toda a faixa de radiações depois catalogada. O espectro que Maxwell descreveu com equações tornou-se objeto de regulação estatal: a atribuição de frequências entre serviços é matéria de tratado internacional desde o início do século XX.

Posição 8: As leis da hereditariedade

A contagem sistemática de cruzamentos de ervilhas mostrou que características passam de geração a geração como unidades discretas, e não como mistura de fluidos.

Ano
1866
Onde
Tchéquia
Quem
Gregor Mendel
Tipo
Experimental

Entre 1856 e 1863, no jardim da abadia agostiniana de Brünn, hoje Brno, na Tchéquia, então parte do Império Austríaco, Gregor Mendel cruzou milhares de plantas de ervilha acompanhando sete características de fácil classificação, como a cor da flor. Apresentou os resultados em 1865 à sociedade local de ciências naturais e publicou-os em 1866 nos anais dela.

As proporções encontradas eram estáveis. O cruzamento de linhagens puras dava descendentes com apenas uma das formas parentais; na geração seguinte, a forma que havia desaparecido reaparecia em cerca de um quarto dos indivíduos. Mendel interpretou isso supondo que cada planta carrega duas cópias de um fator para cada característica, e transmite uma delas a cada descendente, ao acaso.

O trabalho ficou trinta e quatro anos sem repercussão. Foi publicado em periódico regional, escrito na linguagem da hibridação de plantas, e o botânico Carl Nägeli, com quem Mendel se correspondeu, não se convenceu. Em 1868 Mendel foi eleito abade e praticamente interrompeu os experimentos. Em 1900, três pesquisadores chegaram de forma independente aos mesmos resultados e localizaram o artigo de 1866.

A integração ao restante da biologia foi obra do século seguinte. Entre 1902 e 1903, a distribuição dos cromossomos na divisão celular foi apontada como o suporte material dos fatores de Mendel; os experimentos com moscas conduzidos a partir de 1910 mapearam essa correspondência; e a união entre herança discreta e seleção natural consolidou-se nas décadas de 1930 e 1940.

Contexto histórico

A conjunção histórica é notável: o mecanismo que faltava ao argumento de Darwin foi publicado sete anos depois da origem das espécies, e não há evidência de que Darwin o tenha lido. Outro debate cerca os dados. Em 1936, uma análise estatística sustentou que os resultados de Mendel se ajustam às proporções esperadas melhor do que o acaso permitiria, discussão que segue sem conclusão aceita.

Impacto científico

A herança passou a ser tratável por contagem e previsão, o que fez da genética uma disciplina experimental com resultados quantitativos. Desvios das proporções esperadas, longe de refutarem o modelo, tornaram-se instrumento: foi analisando essas exceções que se identificou a ligação entre fatores situados no mesmo cromossomo e, mais tarde, a distância relativa entre eles.

Impacto social

O melhoramento de plantas e animais ganhou base previsível, e a produção de sementes híbridas de milho, generalizada nos Estados Unidos a partir da década de 1930, alterou a produtividade agrícola. As mesmas leis foram invocadas por movimentos eugenistas na primeira metade do século XX para justificar programas de controle reprodutivo hoje repudiados, uso que não decorre dos experimentos.

Posição 9: A tabela periódica dos elementos

A ordenação dos elementos por peso atômico, agrupados por propriedades que reaparecem em intervalos regulares, transformou lacunas de conhecimento em previsões verificáveis.

Ano
1869
Onde
Rússia
Quem
Dmitri Mendeleiev, Lothar Meyer
Tipo
Teórica

Em março de 1869, Dmitri Mendeleiev apresentou à Sociedade Russa de Química um arranjo dos 63 elementos então conhecidos, ordenados por peso atômico crescente e dispostos de modo que substâncias com comportamento químico semelhante ficassem alinhadas. Lothar Meyer chegou por conta própria a um arranjo comparável na mesma época, apoiado em propriedades físicas como o volume atômico.

O arranjo dependia de um dado que só havia se estabilizado pouco antes. Os pesos atômicos em uso eram inconsistentes até que Stanislao Cannizzaro propôs, em 1858, um critério coerente, discutido no congresso de Karlsruhe em 1860, do qual Mendeleiev participou.

Diante das posições em que nenhum elemento conhecido se encaixava, Mendeleiev deixou lacunas e descreveu as propriedades esperadas dos ocupantes ausentes. O gálio foi identificado em 1875, o escândio em 1879 e o germânio em 1886, com massas e densidades próximas das antecipadas. Ele também inverteu a ordem de pares de elementos cujas propriedades contrariavam a sequência de pesos, decisão que a medida do número atômico, feita em 1913, mostrou correta.

O teste mais duro veio no fim do século. Entre 1894 e 1898 foram isolados o argônio, o hélio terrestre, o neônio, o criptônio e o xenônio, gases quimicamente inertes que não tinham lugar previsto em nenhuma coluna existente. Em vez de desmontar o sistema, eles foram acomodados em um grupo novo, e a periodicidade seguiu válida.

Contexto histórico

Mendeleiev era figura pública na Rússia, dirigiu o escritório nacional de pesos e medidas a partir de 1893 e envolveu-se em política industrial. Sua relação com a física que emergia no fim de sua vida foi de resistência: manteve dúvidas sobre a divisibilidade do átomo e sobre a radioatividade como transformação de elementos. Morreu em 1907, indicado ao Prêmio Nobel sem recebê-lo. O elemento de número atômico 101, sintetizado em 1955, recebeu seu nome.

Impacto científico

A química ganhou um instrumento de previsão, e não apenas de classificação, o que alterou o modo de procurar elementos novos: passou-se a saber onde havia vaga e o que esperar de quem a ocupasse. A explicação da periodicidade só chegou no século XX, com a distribuição dos elétrons em camadas, e a tabela continuou a crescer com elementos produzidos artificialmente, cujos nomes são aprovados pela União Internacional de Química Pura e Aplicada.

Impacto social

Ligas metálicas, fertilizantes, catalisadores industriais, pigmentos e, mais tarde, semicondutores dependem do conhecimento sistemático de propriedades e combinações possíveis entre elementos. A tabela tornou-se também o objeto mais reconhecível do ensino de ciências, presente em salas de aula de praticamente todos os sistemas educacionais.

Posição 10: Os raios X e a radioatividade

Em poucos meses, duas descobertas mostraram que existem radiações invisíveis capazes de atravessar a matéria, abrindo o diagnóstico por imagem e a física do interior do átomo.

Ano
1895–1896
Onde
Alemanha e França
Quem
Wilhelm Conrad Röntgen, Henri Becquerel, Marie Curie, Pierre Curie
Tipo
Experimental

Em 8 de novembro de 1895, em Würzburg, Wilhelm Conrad Röntgen trabalhava com um tubo de descarga envolto em papelão quando notou que uma tela tratada com material fluorescente brilhava a distância. Concluiu que algo saía do tubo e atravessava corpos opacos, e chamou esse algo de raios X por não saber o que era. Apresentou o trabalho em 28 de dezembro daquele ano.

A busca por fenômenos parecidos começou de imediato. Henri Becquerel, em Paris, investigava se substâncias fosforescentes emitiriam raios semelhantes depois de expostas à luz. Descobriu que sais de urânio enegreciam placas fotográficas sem qualquer exposição prévia, e comunicou o resultado à Academia de Ciências da França em março de 1896. A emissão não dependia de estímulo externo.

O estudo do fenômeno foi assumido por Marie e Pierre Curie, que lhe deram o nome de radioatividade. Em 1898, Marie Curie mostrou que compostos de tório também emitem, conclusão obtida no mesmo ano por Gerhard Carl Schmidt, e o casal identificou dois elementos novos em resíduos de minério de urânio, o polônio e o rádio. Isolá-los exigiu processar toneladas de material para obter frações de grama.

A emissão espontânea indicava que o átomo tem partes e reserva interna de energia, contrariando a indivisibilidade admitida desde Dalton. Em 1897 foi identificado o elétron e, entre 1902 e 1903, mostrou-se que a radioatividade corresponde à transformação de um elemento em outro.

Contexto histórico

A adoção médica foi das mais rápidas já registradas: meses depois da publicação, hospitais europeus e norte-americanos usavam os raios para localizar fraturas, e Röntgen recusou-se a patentear o processo. O preço apareceu depois. Operadores dos primeiros equipamentos sofreram queimaduras e lesões, e produtos de consumo contendo rádio circularam por décadas antes de serem proibidos. Marie Curie morreu em 1934 de doença sanguínea associada à exposição.

Impacto científico

A física passou a dispor de sondas capazes de investigar o interior da matéria sem destruí-la, e disso nasceram a física nuclear e, com a difração de raios X por cristais a partir de 1912, a determinação de estruturas moleculares. A radioatividade também forneceu relógios naturais: a datação de minerais por decaimento, iniciada em 1907, ampliou a idade estimada da Terra em ordens de grandeza.

Impacto social

A radiologia tornou-se especialidade médica em poucos anos e ampliou o que se podia examinar sem cirurgia. Fora da medicina, passou a servir para inspecionar soldas, peças fundidas, obras de arte e, mais tarde, bagagens. O reconhecimento dos danos por exposição levou à criação, em 1928, de um organismo internacional dedicado a normas de proteção radiológica.

Contexto histórico

A densidade de resultados do século XIX tem explicação institucional. Foi nesse período que o laboratório de pesquisa se tornou parte da universidade, modelo iniciado no laboratório de química de Giessen na década de 1820 e copiado depois por toda a Europa e pelos Estados Unidos. Formar pesquisadores passou a ser função do ensino superior, e não consequência eventual dele.

A comunicação também mudou de escala. Revistas de periodicidade regular, sociedades científicas nacionais, resumos traduzidos e congressos internacionais reduziram de anos para semanas o tempo entre a publicação de um resultado e sua repetição em outro país. A observação de Ørsted em Copenhague estava sendo reproduzida em Paris no mesmo ano; a notícia dos raios X saiu de Würzburg e chegou a jornais de vários continentes em janeiro de 1896.

Há um segundo padrão nas dez posições: o instrumento antecede a descoberta. A teoria celular dependeu de lentes acromáticas; a termodinâmica, de termômetros capazes de registrar frações de grau; os raios X e a radioatividade, de tubos de vácuo, bobinas de indução e emulsões fotográficas. Cada avanço em capacidade de medir abriu uma faixa de fenômenos que antes ficava abaixo do limiar de detecção.

A distribuição geográfica reflete onde essas condições existiam. Reino Unido, Alemanha e França concentram oito das dez posições, com Dinamarca, Tchéquia e Rússia completando o quadro. Não se trata de uma afirmação sobre talento, mas sobre a localização de universidades com laboratório financiado, oficinas capazes de construir aparelhos de precisão e periódicos com circulação internacional.

Cientistas relacionados

Nomes citados nas posições deste ranking, na ordem em que aparecem. O número ao lado indica a posição correspondente.

  • John Dalton #1
  • Hans Christian Ørsted #2
  • André-Marie Ampère #2
  • Michael Faraday #2
  • Matthias Jacob Schleiden #3
  • Theodor Schwann #3
  • Rudolf Virchow #3
  • James Prescott Joule #4
  • Julius Robert von Mayer #4
  • Hermann von Helmholtz #4
  • Rudolf Clausius #4
  • William Thomson #4
  • Charles Darwin #5
  • Alfred Russel Wallace #5
  • Louis Pasteur #6
  • Robert Koch #6
  • Joseph Lister #6
  • James Clerk Maxwell #7
  • Heinrich Hertz #7
  • Oliver Heaviside #7
  • Gregor Mendel #8
  • Dmitri Mendeleiev #9
  • Lothar Meyer #9
  • Wilhelm Conrad Röntgen #10
  • Henri Becquerel #10
  • Marie Curie #10
  • Pierre Curie #10

Impacto científico do conjunto

O século XIX instalou quatro unificações que ainda estruturam o conhecimento. Os átomos deram unidade à química; a célula, à biologia; a energia, à física; e a descendência comum, à história natural. Em cada caso, um conjunto de disciplinas que descrevia objetos separados passou a descrever manifestações diferentes de uma mesma coisa, e essa é a marca comum das dez posições reunidas aqui.

O conjunto também deixou uma agenda de problemas mal resolvidos que definiu o século seguinte. Faltava o mecanismo da herança, que estava publicado e ignorado desde 1866; faltava explicar por que a matéria tem propriedades periódicas; faltava conciliar a velocidade da luz das equações de Maxwell com a mecânica; e faltava entender de onde vinha a energia emitida espontaneamente pelo urânio. As quatro respostas vieram entre 1900 e 1932.

Vale registrar a assimetria entre a rapidez da assimilação técnica e a lentidão da aceitação conceitual. A indução eletromagnética virou gerador comercial em quatro décadas, e os raios X entraram em hospitais em meses. Já a realidade física do átomo permaneceu contestada por cem anos depois de Dalton, e a seleção natural como mecanismo principal só teve maioria entre biólogos no século XX. Aplicar um resultado e aceitar suas implicações são processos com ritmos distintos.

Impacto social do conjunto

Duas transformações materiais concentram o efeito social deste conjunto. A eletrificação, que começa na indução de 1831 e chega às primeiras centrais públicas em 1882, alterou a jornada de trabalho, a iluminação das cidades, a conservação de alimentos e a comunicação a distância. O controle das doenças infecciosas, apoiado na identificação de agentes entre 1861 e 1882, mudou a legislação sanitária, o abastecimento de água e a prática cirúrgica.

A química quantitativa que Dalton inaugurou reorganizou a produção industrial. Corantes sintéticos, fertilizantes, explosivos, sabões e produtos farmacêuticos passaram a ser fabricados com composição especificada e controlada, o que criou tanto indústrias inteiras quanto a profissão de químico industrial. A agricultura europeia do fim do século já dependia de insumos produzidos com base nesse conhecimento.

Nem todos os efeitos foram distribuídos de modo equitativo, e alguns foram diretamente prejudiciais. O conhecimento sobre radiação demorou décadas para ser acompanhado de normas de proteção, e trabalhadores expostos pagaram por essa demora. A biologia evolutiva foi apropriada por doutrinas raciais, e as leis da hereditariedade, por programas eugenistas. Boa parte das aplicações sanitárias e industriais chegou primeiro às metrópoles europeias e só muito depois às regiões então sob domínio colonial.

Houve ainda um efeito de expectativa. Ao longo do século, tornou-se socialmente plausível que problemas práticos tivessem solução técnica e que instituições organizadas de pesquisa a produzissem em prazo previsível. Essa expectativa moldou a criação de institutos nacionais, escolas politécnicas e órgãos de saúde pública, inclusive fora da Europa, e é a herança menos visível e mais duradoura do período.

Limitações do ranking

O critério de fecundidade favorece quem foi ouvido na hora. Ao valorizar a pesquisa gerada até 1900, a lista privilegia achados assimilados rapidamente por comunidades científicas ativas e penaliza os que ficaram esquecidos, como as leis da hereditariedade. Mantivemos Mendel por decisão editorial declarada, mas o mesmo problema pode ter eliminado silenciosamente contribuições de autores sem acesso a periódicos de circulação internacional.

O recorte deixou de fora áreas inteiras. Não há nesta lista geologia, matemática, química orgânica estrutural nem fisiologia do sistema nervoso, e faltam achados de peso indiscutível: a anestesia cirúrgica demonstrada em 1846, a análise espectral que identificou elementos pela luz que emitem, a leitura do tempo geológico proposta na década de 1830 e a identificação do elétron em 1897, excluída por pertencer à sequência tratada no ranking do século XX. Dez vagas para cem anos de ciência obrigam a omissões dessa dimensão.

A concentração institucional é quase total. As dez posições vêm de seis países europeus, e oito delas de apenas três. Nenhuma vem da Ásia, da África, da América Latina ou da Oceania. Parte da explicação é a localização dos laboratórios financiados no período; outra parte é o próprio registro documental, produzido e conservado pelas mesmas instituições que agora servem de fonte. Dados coletados em territórios coloniais alimentaram várias dessas pesquisas sem que os coletores fossem nomeados.

Os nomes citados representam grupos maiores do que eles. Listar de um a cinco cientistas por posição é conveniência de leitura. Ficam de fora fabricantes de instrumentos, preparadores, assistentes de laboratório e colaboradores cujas contribuições aparecem em nota de rodapé, quando aparecem: a adoção do ágar em microbiologia, decisiva para o método de Koch, partiu de uma sugestão de Fanny Hesse, que não assina nenhum dos artigos. Mulheres estavam excluídas da maioria das universidades europeias durante quase todo o século, o que torna sua ausência nas autorias um efeito de barreira institucional, e não de participação.

A sequência é do calendário, o julgamento é da seleção. Como a ordem segue a data de publicação, discordar da posição de um item significa discordar da data, o que é questão factual. A discussão legítima está em quais dez itens deveriam estar aqui, e essa é uma escolha nossa, feita com os critérios acima à vista. Um historiador da geologia ou da matemática montaria outra lista, com razões defensáveis, e a divergência específica é mais útil do que a concordância genérica.

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Fontes utilizadas

Referências consultadas na montagem e na revisão desta lista. Endereços externos abrem em nova aba e não são de nossa responsabilidade.

  1. Acervo de artigos originais e registros de reuniões do século XIX Royal Society, Reino Unido https://royalsociety.org/
  2. Documentação sobre a tabela periódica, pesos atômicos e nomenclatura de elementos União Internacional de Química Pura e Aplicada https://iupac.org/
  3. Acervo histórico sobre os trabalhos de Louis Pasteur e a bacteriologia do século XIX Instituto Pasteur https://www.pasteur.fr/en
  4. Literatura biomédica indexada sobre história da microbiologia, da radiologia e da patologia celular Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/
  5. Material de referência sobre hereditariedade, cromossomos e a redescoberta dos trabalhos de Mendel Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, Estados Unidos https://www.genome.gov/
  6. Arquivo de artigos publicados sobre eletromagnetismo, termodinâmica e radiação Periódico Nature https://www.nature.com/
  7. Registros de laureados e textos de apresentação sobre descobertas do fim do século XIX Fundação Nobel https://www.nobelprize.org/prizes/
  8. Documentação sobre as campanhas sanitárias brasileiras baseadas na teoria dos germes Fundação Oswaldo Cruz https://portal.fiocruz.br/
Publicado em 7 de abril de 2026 Última atualização em 8 de julho de 2026 Revisão: verificação de fatos
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